É constituido por obras doadas à Câmara Municipal da Marinha Grande, pelo Professor Escultor Joaquim Correia (na foto), um dos maiores expoentes no campo da criação artística do concelho.
 
 
"Quando em simultâneo com a Bienal de Artes Plásticas da Marinha Grande em 1996, resolvemos homenagiar o nosso Escultor Mestre Joaquim Correia, através de uma mostra da sua obra e inauguração do bromnze do seu Orfeu, escrevemos que perenizar o Orfeu para nós não era tudo.
Diziamos então que era nosso anseio e, estou certo, o de toda a população do Conselho perenizar também o Homem e o Artista.
Mas além dizia que necessitávamos de um museu onde ficasse dignamente registada a memória do que foi o nosso maio expoente no campo da criação artística. Ao procedermos à inauguração do Museu Joaquim Correia, para além de prestarmos a justiça há muito devida ao Mestre, temos de deixar aqui registado para sempre o reconhecimento do conselho ao Artista e à sua família.
O desprendimento de que deram provas só tem par no afecto de que se revestiu o acto de doação da obra que agora é de todos nós.
O Escultor esculpiu uma obra e uma família ímpares. O Conselho da Marinha Grande ficará reconhecido para sempre."
 
Álvaro Neto Orfão
Presidente da Câmara Municipal da Marinha Grande
 
 
 

"Na história dos meus deslumbramentos na descoberta do "universo da escultura" foi sem dúvida um momento alto, a contemplação do "Orfeu" do Joaquim Correia. Hino à Poesia, à Música, à Natureza, a que não foram estranhas "as flores do verde pino", a música contínua das vagas e a arquitectura anatómica dos pescadores de S. Pedro de Moel.
o seu atelier na Travessa do guarda-jóias, proximo do Palácio da Ajuda, era uma velha cavalariça cheia de carácter. Estávamos nos finais dos anos quarenta e eu frequentava o primeiro ano da Escola de Belas Artes de Lisboa, quando o Joaquim Correia, finalista do Curso Superior de Escultura se propoz fazer-me o retrato. Foi na imobilidade forçada de "modelo" que pude surpreender os gestos determinantes de escultor, a atenção, a tensão, a contenção, de que ia emergindo uma "construção plástica", como diria Bourdelle, afirmativa e significante.

 
Em 1946, exposemos pela primeira vez os nossos trabalhos, no Salão Primavera da Sociedade Nacional de Belas Artes. Era um tempo em que não existiam Galerias e a Arte era mais ócio que negócio.
O Joaquim Correia falava-me com intusiasmo do Francisco Franco e do Barata Feyo com quem havia trabalhado. Foi a época do café Chiado, hoje Companhia de Seguros, onde paravam "os monstros sagrados" - o Viana, o Manta, o Almada - e uma rapaziada ansiosa, inquieta, irreverente. Para além dos alunos da Escola de Belas Artes, o Cardoso Pires e o Manuel Ribeiro de Pavia. Quando como bolseiro por concurso público do Instituto de Alta Cultura, voltei a Lisboa, após três anos passados em terras de Itália, Grécia e Egipto, vim ser seu vizinho de atelier nos pavilhões da exposição do Mundo Português em Belém, e a nossa convivência fortaleceu-se. Assisti ao nascer de muitos dos seus trabalhos: Modelação vibrante, inteligente, intencional. Mais do que falar da sua qualidade de estatuário e requintado medalhista, neste momento é sobretudo justo e opurtuno lembrar o Professor e Director que foi da Escola Superior de Belas Artes de Lisboa. Lutador incansável pela restruturação do ensino superior artístico, cria o centro de calcografia e gravura, abre na escola uma galeria onde são expostas "As Obras de Rodin existentes em Portugal" e "30 gravuras Portuguesas do séc. XVIII e XIX". Afloram-me neste momento imagens fugidias da sua personalidade: O seu amor à música, as lições de violoncelo na escola, no fim do dia; o chapéu axadrezado, à Manzu; o apaixonado do amor à família; a alegria com que falava dos seus pomares da cela; o Afonso Lopes Vieira, S. Pedro de Moel e a Marinha Grande onde o seu Pai fora Mestre Pintor Vidreiro."

Lagoa Henriques
 
 
 
  "O Escultor e Professor Joaquim Correia descende de família de artístas pintores ligados ao fabrico do vidro em Portugal há muitas gerações, um "operário" da escultura no nobre sentido desta palavra exaltada por Rodin. Cedo se encontra com a escultura, o Poeta Afonso Lopes Vieira apadrinha a sua forte vocação, que o levou a trabalhar com dois Mestres, Francisco Franco primeiro, Barata Feyo depois, estava jogado o seu futuro servido por uma tenacidade em altura que agora coroa os seus setenta anos de fidelidade a um grande ideal. Aliciante para quem se tem debruçado sem propósito crítico sobre a nossa escultura, na procura de entendimento que a possa situar no mundo das formas neste exaltante século de ensaios em todas as artes; meditar sobre a obra de Joaquim Correia, um privilégio embora com a brevidade que aqui se exige. Desde sempre foi saliente na sua escultura expressionismo mais latino que germânico de que não conhecemos émulo, tanto na escultura religiosa como na profana, entre
relevos, grandes composições e estátuas públicas, nestas pode ser mais difícil ser-se fiel ao principio estético definidor da personalidade artística do autor, de que não abdica, realizando original paroxismo de contrastes formais, em que o bronze, material seu preferido, melhor guarda o tumultário movimento. Na constante formal da sua escultura, já sugerida num movimento de raiz atlântica ou bucolismo dos pinheiros sem fim da sua Marinha, encontra-se um sopro de inquietude espiritual, esforço de libertação de influências, que as teve, mais confessadas que visíveis na sua obra.
O Escultor Joaquim Correia, tem-se destacado como retratista, ao que parece um pendor da arte Portuguesa do séc. XV, aos nossos dias. Em 42 realizei o seu retrato, em que se lê a sua grande vontade de vencer, um jovem predestinado muito cedo consciente do seu futuro. No caso particular do retrato, o retratado, geralmente um ser espiritualmente rico, e o autor tem participação de igual importância, a sua personalidade está bem expressa; como nas suas medalhas executadas livremente ou encomendadas, sendo hoje um dos criadores mais destacados neste género, tendo contribuído fortemente ao seu renascimento entre nós. Professor de cadeiras teóricas na Universidade Autónoma de Lisboa, tem em estudo vasta monografia sobre a indústria e a arte do vidro em Portugal. A sua grande actividade ainda se divide ou multiplica por numerosa família dedicada às artes e às ciências, ele próprio apaixonado pelo violoncelo, humanista e patriarca."

António Duarte